Nem toda dor é igual. A dor nociceptiva é a resposta a um dano tecidual: uma entorse, uma incisão cirúrgica, uma articulação inflamada. A dor neuropática é diferente na origem: ela surge de uma lesão ou de uma disfunção do próprio sistema somatossensorial, periférico ou central. Essa distinção não é acadêmica. Ela define o tratamento.
Os sinais que apontam para o componente neuropático
O paciente costuma descrever a dor com palavras que não aparecem na dor nociceptiva: queimação, choque, formigamento, agulhadas, sensação de frio doloroso. Ao exame, dois achados são especialmente sugestivos: a alodinia (dor provocada por um estímulo que normalmente não dói, como o roçar do lençol) e a hiperalgesia (resposta exagerada a um estímulo doloroso leve). A distribuição costuma seguir um território neurológico plausível: um dermátomo, um nervo periférico, um lado do corpo.
Por que o anti-inflamatório não resolve
Anti-inflamatórios e analgésicos simples atuam sobre a cascata inflamatória e sobre a transdução periférica do estímulo. Na dor neuropática o problema está na condução e no processamento do sinal: canais de sódio hiperexcitáveis, sensibilização central, perda de inibição descendente. É por isso que os fármacos de primeira linha são outros: gabapentinoides, antidepressivos duais e tricíclicos, além de agentes tópicos em casos localizados.
Ferramentas que ajudam no consultório
Questionários de triagem como o DN4 são rápidos e têm boa sensibilidade para levantar a suspeita. O diagnóstico, porém, continua clínico: história compatível, distribuição anatômica plausível e alteração de sensibilidade ao exame. Exames complementares confirmam a lesão, mas não substituem a avaliação.
Reconhecer o componente neuropático cedo evita meses de tratamento inadequado e de frustração para o paciente. É uma das competências centrais de quem trata dor, e um dos temas que mais aparecem nas turmas do sinpain.


